segunda-feira, outubro 12, 2009

Homo Aeticos Amoralis

Confesso que não sou a pessoa mais certa do mundo, para dizer a verdade, não sou a pessoa mais certa nem do meu bairro, alias, nem da minha casa. Ainda assim, fazendo o mea culpa, devo dizer que estou cansado desse povinho do meu Brasil varonil. Aqui, em plagas tropicais, perdemos todos os limites da ética, da moral, do respeito ao direito alheio, não sabemos mais usar o por favor nem o muito obrigado, pedir desculpas parece ser um comportamento alienígena, atravessar na faixa de pedestre virou coisa de maníaco com TOC, estacionar com as quatro rodas na calçada uma regra invisível do código nacional de trânsito, estudar para prova algo incompreensível para os jovens alunos, enfim, vivemos num mundo de pernas para o ar, pelo menos da minha perspectiva. Mas talvez o problema seja isso mesmo, ponto de vista. Quem sabe eu viva numa ilusão e quem esteja de ponta cabeça seja eu e não o mundo. Já pensei seriamente nessa hipótese. Numa situação em que todos agem como se não existissem três milênios de filosofia diferenciando o certo do errado, existe uma boa possibilidade de eu estar interpretando de forma torta o mundo a minha volta, e pior de tudo, me achando o último dos moicanos, o bastião superficial de uma moralidade enterrada no pântano do farinha pouca meu pirão primeiro.
Digo isso porque hoje bateram no meu carro, dentro do estacionamento de um supermercado. No desenrolar do bafafa, as seguintes propostas me foram feitas pelo motorista e dois sujeitos que aparecerem depois: acionar o meu seguro – e que se exploda minha classe de bônus; dar uma parte do dinheiro de um prejuízo que não foi calculado e sair antes da chegada da polícia – sendo que eu seria acusado de realizar uma notificação falsa de acidente; não chamar a polícia porque o condutor do veículo que colidiu estava com os documentos vencidos. Quando eu, que estava até disposto a negociar, bati o pé firme em relação a feitura do BRAT, virei instantaneamente alvo de ameaças veladas do tipo: se for a justiça você vai demorar a receber; vamos ligar para um amigo que é major da PM; e por aí foi. Essa situação foi para mim uma espécie de epifania, passei a ver para além das sombras da caverna, aquela do Platão. O errado sou eu, é lógico. A verdade, de tão óbvia, me escapou durante muito tempo. Eu estou em descompasso com a história, sou um anacronismo bípede, caminhando em pé numa sociedade que rasteja. Sou uma criatura antinatural, condenado pela teoria da evolução das espécies desde o século XIX. Não me adaptei ao meio e por isso estou condenado à extinção. Um fim até certo ponto digno. Em alguns anos estarei em exposição n’algum museu de história natural, atrás de uma parede de vidro, sendo observado por crianças de escola que escutarão entediadas os comentários do guia: _ Este crianças, é o homo sapiens sapiens, nosso ancestral direto, evoluíram dentro do que eles chamavam civilização, organizados em torno de princípios éticos e morais. Foram extintos quando nossa espécie, o homo aeticos amoralis, se tornou dominante. Coitados, não suportaram nossa superioridade.
Enfim, tudo se resume a Galápagos e ao bom e velho Darwin, a ética e a moral não passam de acidentes provocados pela erudição de alguns escravocratas ociosos, servindo apenas para atrasar a escalada na hierarquia da natureza de uma nova espécie, mais forte e mais esperta, que não se prende a regras tolas e abstratas de convivência. Viva a conveniência.
O museu, de fato, é o meu destino, assim espero, iria detestar acabar com a minha cabeça exposta na sala de troféus de algum caçador.

CEVDM

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

hello my name is lokii

4/09/2011 7:56 AM  

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