quinta-feira, dezembro 31, 2009

Carnaval de bebum não tem dono

Manhã da quarta-feira de cinzas, praia de Ipanema, lá pelas oito. Josué acorda preguiçoso, boceja profundamente algumas vezes e estala todos os membros do corpo. Senta-se e olha ao seu redor, o mar está translúcido, as ondas arrebentam calmamente numa espuma branca e refrescante. As primeiras pessoas estão correndo no calçadão, algumas estão caminhando pela areia, enfim, tudo indica um dia de praia ensolarado para o carioca. Josué, porém, não parece muito animado, na verdade a única coisa que ele pensa é: PQP, o que diabos estou fazendo na praia? Bom, de fato no segundo seguinte a primeira interrogação surge uma interjeição: PQP, eu estou nu!
Rapidamente Josué se enterra na areia até a cintura, precisa entender o que esta acontecendo. Ai meu Deus, vai coçar meu bingulim uma semana! Ipanema? Parece Ipanema. Ai caramba, eu estou na praia de Ipanema! Puxa pelas suas lembranças. Nada. Ou melhor, quase nada. Sua memória só alcança o Bloco do Pinto Louco, lá no Méier. Todo ano, a mais de três décadas, a festiva agremiação desfila pelas ruas do bairro, e Josué puxa a ala das piranhas, que como todos sabem são aqueles homens que desfilam com fantasia de mulher, ou realizando uma fantasia de ser mulher, depende do ponto de vista.
Esforça-se um pouco mais, sua cabeça parece que vai explodir. Mais um flash. Agora sim, sua última e derradeira memória anterior a sua situação de desterro, ou enterro, foi estar no boteco do Miramar, entornando um rabo de galo. Depois... Ipanema, nu, e agora soterrado, preocupado com os hábitos alimentares daquelas baratinhas que circulam serelepes por dentro da terra.
A praia começou a encher. A princípio ninguém se preocupou com Josué, afinal as areias fervilhantes de Ipanema são conhecidas não só pela beleza, que integra natureza e urbanidade, mas pela democracia que impera entre seus freqüentadores, de tudo um pouco, de louco a prostituta, de madame a filhinho-da-mamãe, de surfista ao Josué. Barracas foram armadas ao seu lado, crianças fizeram castelos de areia ao seu redor, bolinhas de frescobol batiam em sua testa. O calor era tremendo, Josué sentia o rosto e o tronco arder como se estivessem assando na cozinha do inferno, no baixo ventre a imagem que vinha a sua cabeça era de um galeto, daqueles bem passadinhos.
Lá pelas tantas, quando a desidratação já ameaçava sua consciência, senta-se ao lado do nosso torrado personagem um senhor, boa aparência, físico enxuto para os fartos cabelos grisalhos que ostentava, trajando uma sunga lilás estampada com corações pretos. Josué, sem graça, tenta disfarçar, mas convenhamos, não a muito como disfarçar uma situação como a dele. Adota então uma postura mais agressiva, na esperança de espantar a companhia indesejável. Que foi? Nunca viu um homem enterrado não? Muito comum, muito comum! O senhor nem piscou, impávido, mirou um olhar perdido no mar, suspirou longamente, como que aspirando os bons eflúvios do oceano, virou-se para o Josué e disse, num tom cândido, acalentador: Josué, pensei muito em nós desde o Bloco. Você lá, de pareô vermelho, batom escarlate, peito cabeludo, tomando aquele rabo de galo como eu nunca antes vira um homem tomar, e depois, chegando por trás de mim, me cinturando e cantanto “olha a cabeleira do Zezé”, nossa, aquilo foi um mimo. Depois no carro, as juras de amor eterno. Sabe, eu só queria diversão, mas você, ah você, parecia estar tão certo de que nós... Nós poderíamos engrenar, sei lá, um caso para além do reinado de momo. Mas aí, depois de nossa noite louca, bem aqui nas areias de Ipanema, quando você adormeceu, me bateu um medo enorme, e fui embora. Mas depois, ao acordar, lembrando do seu cheiro, não tive dúvidas, voltei correndo para cá, na esperança de te encontrar, e veja só, quis o destino que você estivesse aqui, guardando o nosso futuro. Josué, Josué, que me dizes de tudo isso? Josué? Josué?
Manhã de quinta-feira, cemitério São João Batista, Botafogo. Olhares incrédulos para o caixão que guardava o corpo de um dos mais importantes foliões do Méier, membro fundador do Bloco do Pinto Louco, Josué. Amigos antigos do diretor da ala das piranhas confabulavam num canto do velório, assustados, nervosos. Porra Pedrinho, tu me disse que era uma brincadeira com o Josué, levar ele pra praia, deixar ele nu, que ele tinha tomado um porre homérico e tal. Depois mandar lá o meu irmão, que ele não conhecia, falar umas sacanagens, só assustar. Mas aí ô! Olha no que deu, cacete!
Pedrinho, o mentor da brincadeira que acabou mal, e que estava tomando a carraspana do Alcebíades retrucou: Cacete Alcebíades, teu irmão tinha que ir com aquela sunga lilás, e pra piorar, em frente a Farme de Amoedo?!? Foi demais pro Josué!

1 Comments:

Anonymous yriazi said...

cara eu amo suas histórias... tô chorando muito de rir... sem fôlego!

6/02/2011 9:56 PM  

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