domingo, maio 16, 2010

Hábito Macabro

O dia estava agradável. Resolvi então passear no parque, pois adoro áreas arborizadas e o cheiro da terra úmida para mim é revigorante. Como chovera no dia anterior era certeza senti-lo. Sentei entre as enormes mangueiras, bem de acordo com meu hábito, e passei a olhar o chafariz criar formas aleatórias ao sabor do vento fresco do outono.
Alguns minutos depois, quando as bombas foram desligadas e só restou um grande lago artificial aquietado, pude divisar numa das margens algo boiando. Minha curiosidade conduziu-me até o local aonde o estranho objeto flutuava placidamente e, para meu horror, pude constatar que não se tratava de nenhuma porcaria jogada nas águas por algum desleixado, mas era o corpo de uma pessoa. Uma mulher para ser mais exato. Não consegui conter o grito que atravessou minha garganta. Rapidamente o local encheu de pessoas, e pouco depois de policiais.
Fui interrogado por um inspetor que parecia estar no comando das investigações do local. Não chegou a pegar pesado comigo, talvez porque tenha percebido o quão verdadeiramente abalado eu estava, mas também não foi um doce de pessoa. Insistiu várias e várias vezes para que eu contasse a que horas eu havia chegado ao parque, o porque de sentar-me embaixo daquelas mangueiras, num ponto onde eu avistaria facilmente o corpo e que razões eu tinha para estar ali naquela hora de um dia de semana. Levei um bom tempo contando tudo o que o Sherlock queria saber.
Fui dispensado e avisado que seria chamado a depor na delegacia. Porém, antes de ir embora, ainda pude escutar os peritos dizendo que os mamilos da pobre mulher tinham sido estipardos a dentadas. Confesso que quase desmaiei com a revelação de tal brutalidade. Quem alma torturada faria uma atrocidade desta com outro ser humano.
Chegando em casa tirei imediatamente as roupas e as coloquei na máquina de lavar como se estivessem contaminadas. E de fato estavam, contaminadas pelo medo e o asco que aquela mal fadada experiência de encontrar o corpo de uma mulher assassinada me provocaram. Entrei no chuveiro e tomei um longo e quente banho, conforme meu hábito. Aliás, sou exageradamente metódico, nos dizeres de minha madrasta, ela mesma uma paranóica com rotina e organização, a ponto de me fazer repetir a exaustão à forma correta de dobrar camisas de malha até que eu acertasse.
Saí do banho um pouco mais relaxado e recostei-me na poltrona olhando displicentemente a televisão desligada. Lá pude ver o reflexo da minha cara. As maças do rosto estavam carcomidas, as órbitas saltadas e injetadas de sangue, os cabelos ralos e com cor de rato, as orelhas pontiagudas. Pisquei os olhos para ver se aquela imagem apavorante desapareceria da minha frente, mas não, ela continuou ali, gargalhando da minha fragilidade, da minha inocência. Eu era apenas uma casca que servia de esconderijo para um maldito demônio, um predador. Ele saltou do televisor como uma imagem em 3D e agarrou meu pescoço. Eu sabia o que ele queria, sabia que não podia contrariá-lo, deixei então que se apossasse do meu corpo, da minha vontade, e tornei-me um mero expectador de mim mesmo, uma marionete nas mãos daquela criatura repulsiva que vivia nos recônditos mais ermos do meu inconsciente. Antes de sair para saciar sua sede de sangue e sexo, o maldito foi até o quarto, abriu uma gaveta do armário e admirou uma coleção de mais de cinqüenta mamilos, todos alfinetados num tecido aveludado, dentro de um quadro de cedro envernizado com uma imensa tampa de vidro, tal como uma coleção rara de borboletas de um entomólogo.
E lá se foi a espreitar mais uma vítima, todas mulheres, todas minhas madrastas. Arrancaria seus mamilos com elas ainda vivas e as mataria após violentá-las. Depois me levaria até o local onde a abandonara, para que eu visse sua obra e sentisse todo o horror do mundo.
Tudo conforme seu hábito, um hábito profundamente enraizado.

1 Comments:

Blogger Conexão Fortaleza said...

carakas... pra q eu fui ler... rsrsr muito bom.. porem amedrontador...
mas em suma é isso mesmo que muitas vezes o pecado e as brechas q abrimos em nossas vidas nos levam a fazer... agimos como loucos. temos atitudes q desconhecemos, quando estamos fora ou fugindo da presença de Deus... soh Ele é quem pode nos equilibrar e passar de marionete para comandante da vida, e debaixo de sua maravilhosa vontade e graça!

1/11/2012 11:50 AM  

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